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Vice e a arte de Ironizar Políticos

A história sempre possui vários pontos de vista, mas neste caso, cadê a graça prometida?


Donald Rumsfeld está acompanhando de Dick Cheney e explica que atrás da porta a sua frente, Nixon está discutindo a possibilidade de bombardear o Camboja. Por mais que a expressão de Dick não mude, ele questiona tal atitude e até mesmo o que eles acreditam diante das posições que possuem, logo a resposta que recebe explica que aquele lugar é de onde sai as maiores decisões para o mundo, sejam boas ou ruins, elas o mudam de alguma forma.
Assim, a cena termina em uma longa gargalhada, algo que deveria causar o mesmo efeito no espectador, por mais que estejamos acompanhando um drama com toques de comédia, e ainda que seja sobre política, as risadas custam a sair.

Acompanhamos então a ascensão de Dick Cheney como secretário do estado do governo Bush. Demonstrando que sua vida política e pessoal sempre estiveram num limiar de negociações, momentos tempestuosos e nada carismáticos. Culminando em decisões que conhecemos daquele governo americano e sua política anti-terrorismo.

Adam Mcay executa um trabalho quase igual ao realizado em A Grande Aposta. 
O que temos de diferente nessa nova história são os cortes que mesclam com inserções que tornam a experiência quase que documental. Mas essa tentativa de realismo exacerbado acaba perdendo a intenção que a produção gostaria de causar: a comédia.
O tom as vezes mórbido, com um humor quase que sisudo e sarcástico funciona em determinados momentos, entretanto, como um todo, apenas demonstra que o diretor sabe realizar um tipo de histórias, e o seu “humor inteligente regado de crítica política” é apenas uma piada que ninguém entende, não por falta de conhecimento ou referência, mas sim por sua falta de graça mesmo.
O interessante nisso tudo é que a sátira política permeia a cultura pop há muitos anos! 
Desde séries de televisão à filmes, presidentes, senadores, prefeitos ganharam suas versões repletas de demagogia e falácia.


Quem não lembra de Odorico Paraguaçu da conhecida novela O Bem Amado, prefeito da cidade de Sucupira, com seu discurso carregado de expressões que ele mesmo criava, principalmente quando feita a promessa do cemitério municipal? A figura era uma amalgama do período político brasileiro, onde a corrupção e propostas não saíam do papel. Não que isso tenha mudado hoje em dia.
E assim temos os conhecidos membros do Casseta e Planeta, com um humor satírico, o grupo ocupou a grade da televisão até meados dos anos 2000 e para o grande público era o mais próximo que conhecíamos de comédia informativa e que utilizava das figuras públicas, muitas vezes, para transformar em graça certas decisões que os mesmos tomavam. 
Itamar Franco, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso, Lula, Dilma, Garotinho, Maluf, Pitta e outros viraram alvos do escracho e da crítica, por seu estilo de fala, discursos e atitudes que nada favoreciam o povo brasileiro. 
Tornar presidentes, governadores, prefeitos, referências em piadas é uma arte que produz não só o riso, gera também o entendimento dos fatos apresentados naquela pequena narrativa que está sendo contada. Isso nos leva a perceber que muitas vezes o público percebe melhor o que está havendo através do que é cômico, como um eufemismo disfarçado de palhaçada que tenta amenizar a situação, mas que ao mesmo tempo, faz com que o riso diminua e se torne forma de reflexão.
O programa "Tá no Ar", trouxe uma paródia da conhecida série de comédia mexicana, Chaves, onde na vila que moram os personagens, um novo "dono" chegara, O Capitão, persona que encorpora os trejeitos e falas discriminatórias do atual presidente da república. Se formos procurar, existem inúmeros comentários de pessoas que detestaram a esquete, alegando a "falta de graça", e aqueles que entenderam as críticas expostas no jeito de conduzir o que acontece na Vila Militar do Chaves.


Assim, o que falta na obra de Adam McKay é ser irônico sem a necessidade de agir de forma seletiva com seu público, é abraçar o escracho sem medo, e se a intenção é transformar uma figura tão nefasta conhecida por todos, a graça demasiada seria um grande trunfo, capaz de gerar o entendimento necessário das ações que levaram muitas vezes a resultados desastrosos. Há méritos na obra e no estilo do diretor, porém fazer rir não é o seu forte. 
Desta forma, existe uma necessidade quase inerente dentro da cultura pop de converter tais líderes em escárnio público, principalmente quando suas atitudes acabam por prejudicar quem sempre esteve abaixo, pois por mais que uma piada seja contada de forma até rápida, seu efeito ainda continuará reverberando na mente de quem ouviu!
Pode ser que a arte de ironizar políticos não seja para todos, apesar que todo mundo, algum dia, em algum momento, já fez referência a uma dessas personalidades tão repletas de falácias que conhecemos, sejam elas brasileiras ou não, de direita ou não, que querem resolver isso aí e acabar com as mamatas alheias. 
Tá ok? Tá ok!
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