Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy

Um assassino romantizado por sua aparência há mais de 30 anos.


Chegou a locadora vermelha nesse mês de janeiro Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy, uma minissérie documental em 4 capítulos sobre Theodore Robert Cowell, um dos assassinos em série mais temidos da história dos Estados Unidos, acusado e levado a pena de morte pelo estupro e assassinato de 30 mulheres - mas o número de vítimas é muito maior que esse -, sendo esse número o de vítimas identificadas que tiveram seus corpos encontrados pela polícia.

A série não é mera ficção baseada em fatos reais, ela é feita somente de fatos, vídeos e depoimentos reais, com pessoas que de fato tiveram contato com o assassino Ted Bundy e traz em detalhes todos os pormenores dos crimes cometidos, gravações dos julgamentos, matérias televisivas, fotografias, entrevistas e tem seus crimes quase todos narrados pelo próprio Ted, já que a série é feita partindo das gravações feitas por um jornalista a pedido do Serial Killer, antes de sua morte na cadeira elétrica.

É quase impossível assistir a série sem criar repulsa, sem se incomodar com os fatos e com a frieza do assassino. No decorrer dos capítulos, escutamos a narrativa de Ted Bundy ao jornalista Stephen Michaud e os depoimentos de jornalistas, advogados, ex-colegas, uma vítima que consegue escapar da morte, além de ter acesso a detalhes dos casos registrados. Tudo isso pode impedir uma maratona ou causar um grande sentimento de medo e raiva - isso em qualquer pessoa com um mínimo de humanidade - mas, o que o serviço de streaming não contava era que assim como quando Ted foi preso e levado a julgamento, as pessoas se manifestassem não em repúdio a suas atitudes, mas para falar de sua beleza e seus atributos.


A nossa locadora vermelha Netflix mal saiu de uma polêmica envolvendo romantização de abusadores e criminosos com YOU e já caiu em outra, mas dessa vez o inimigo é real.
Ao longo dos episódios somos apresentados a uma figura com certa influência e poder de manipulação que consegue levar milhares de pessoas a duvidarem de seus crimes, e as pessoas realmente duvidam até que evidências provem que ele de fato é um assassino serial que mata somente mulheres com resquícios de crueldade. Se em YOU temos um sociopata obsessivo eu nem sei dizer o que temos em Ted Bundy. Em alguns momentos, chega a ser inacreditável o que nos é mostrado, como por exemplo, o fato de o mesmo atuar como advogado no próprio julgamento, ou como o mesmo manipula os fatos de forma a tentar reduzir uma possível pena ou convencer os espectadores do caso de que é inocente ou vítima de alguma força misteriosa que o faz agir de forma violenta.

O julgamento de Ted Bundy foi o primeiro a ser exibido em TV aberta nos EUA e é incrível a quantidade de mulheres que acompanhavam os julgamentos por conta da beleza e do "charme" de Ted. Ironia é que tais comentários se repitam a ponto de a Netflix pedir aos espectadores que parassem de fazer tais comnetários.


Mais uma vez caímos na história do estereótipo associado aos vilões, sociopatas, assassinos, etc. Como pode a aparência "agradável" de um criminoso fazer com que as pessoas relativizem seus crimes, mesmo os de assassinato? Como pode situações de abuso serem romantizadas em detrimento de uma fala agradável e uma aparência dita bela?

Assim como em YOU, Ted Bundy nos mostra que assassinos, sociopatas, criminosos, abusadores, não tem cara. É um alerta. É importante e a romantização dessas personas é grave e faz com que o objeto principal seja deixado de lado. Crimes contra mulheres seguem acontecendo e acontecem por mãos que talvez a gente nem imagine. Os números são alarmantes, são preocupantes e crescem todo dia. Uma produção como YOU ou Ted Bundy deve ser encarada como alerta. Ted Bundy é a prova real de que perigo não tem padrão de fábrica. 

Em paralelo a toda a polêmica causada pela produção, a Netflix acaba de comprar uma produção, dessa vez fictícia, sobre o mesmo personagem. Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile é uma produção recente em formato de filme que foi exibida no Festival de Sundance e traz Zac Efron (do famoso High School Musical) no papel de Ted Bundy, contando a história através do olhar de Liz, namorada do assassino que se recusava a acreditar em seus crimes. A compra não é uma novidade visto o sucesso da série documental - ainda que de forma deturpada em boa parte desse sucesso -, mas será que, a exemplo de YOU, uma produção com um ator "galã" não seria combustível para mais romantização de abusos e crimes? 
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