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Boy Erased e a Verdade Realmente Anulada

Jesus é um cara muito legal, quem ferra tudo é o fã clube



Existem verdades que transcendem a humanidade. Verdades que foram estabelecidas a milhares de anos e que até hoje devem ser seguidas à risca por uma determinada parte da população global.
Parte dessas verdades foram escritas baseadas num discurso onde se deveria "amar uns ao outros, como a si mesmo", palavras sábias, bem empregadas, repletas de uma empatia sem igual, porém, não é desta forma que as coisas acontecem. Em meio à violência, opressão e discriminação, milhares de jovens passam por situações semelhantes às relatadas no filme Boy Erased, que para nossa surpresa, acaba de ser banido dos cinemas nacionais.
Seria isso um boicote do governo? Um receio da distribuidora com relação a bilheteria? 
Ou mais um momento de censura gerada por quem lidera baseado na religião?

Garrard é um jovem norte-americano, filho de um pai reverendo e de uma mãe também religiosa. Porém, o rapaz resolve revelar (O que soa mais como se ele fosse obrigado a confessar seu maior pecado) que é gay e logo é enviado para uma espécie de "tratamento de cura", junto com outras pessoas que estariam passando pelo mesmo "problema" que ele. Mas o que deveria ser uma terapia, se torna o palco de humilhações, agressões, traumas em nome da fé de pessoas que veem na população LGBTQ+ algo abominável.

Joel Edgerton é responsável pela adaptação do livro de Garrard Conley, que narra as memórias dos momentos que passou nesse tal programa para "cura" de pessoas LGBTQ+.
A produção demonstra desde o início a forma como a religião se torna controladora, obsessiva e principalmente discriminatória em lugares dos Estados Unidos. O diretor não poupa esforços para enaltecer as cenas de agressão e tortura (O que certamente deixará muitos homofóbicos, conservadores e eleitores do atual governo brasileiro satisfeitos), entretanto, procura caminhar até um momento onde o protagonista encontra sua "salvação" naquilo que realmente é.

Uma produção como esta certamente causaria um alvoroço sem tamanho, principalmente tocando em dois pontos interessantes da sociedade: o preconceito e a religião.
Se analisarmos todo o histórico da Igreja (neste caso todas elas), não será nada favorável o comportamento em relação a comunidade homoafetiva. Pelo contrário, a igreja é a principal promulgadora de um discurso de ódio em relação a tudo aquilo que é diferente ou que se é entendido por diferente de suas pregações/sermões de domingo. E quando uma obra cinematográfica se propõem em expor, em pleno século XXI, métodos da Idade Média, para se tentar converter alguém, logicamente as campanhas envolvendo discursos com frases: "Filme do demônio", "Filme que tenta ridicularizar a igreja", surgem. E não são essas as atitudes que membros e líderes em suas megas estruturas, com musicais monumentais e programas de televisão pregam?


O redator que vos escreve esse artigo conviveu boa parte de sua vida em uma dessas igrejas, uma comunidade de pessoas que deveriam seguir os ensinamentos de Jesus. 
Não haviam acampamentos de cura para gays, mas era possível entender na fala de muitas pessoas que o preconceito sempre esteve presente. A ponto de promoverem cursos de "Masculinidade" ou para deixar você sendo um "Homem ao Máximo". Em contrapartida, o resultado era um grupo de machistas, opressores, que mal deixavam suas esposas, namoradas e noivas dizerem algo, seja o momento que for, seja num culto, numa reunião em casa ou simplesmente uma saída com os jovens da congregação. E caso você não seguisse esse padrão de testosterona, aos poucos você era excluído, afastado, ridicularizado pelos demais.
Nessa época também, casos de pessoas que casaram por obrigação aconteceram para não "dar lugar ao diabo" em suas escolhas, o que para bom entendedor meia hora de pregação já basta. 
Muitos desses casamentos ocorriam porque os pais e o conselho da igreja decidiam pelas pessoas, tal e qual Garrard vivencia no filme quando é enviado ao acampamento de "cura"!

Certamente esses relatos não possuem a mesma intensidade dos eventos que acompanhamos em Boy Erased, mas contém a mesma verdade que muitos querem calar: a verdade de que a vida foi feita para todos, independente de gênero, sexo, raça, cor. Entretanto, nem todos veem desta forma.
O cinema, por exemplo, tenta trazer histórias que ajudam no pensamento dos espectadores com relação a tais situações, consegue? Nem sempre! Pois se tivemos pessoas vaiando os momentos de beijos de Freddie Mercury em sua cinebiografia, outros que foram atrás de The Miseducation of Cameron Post apenas pela cena de sexo entre duas meninas. Seria essa a produção que faria o grande público sentir um pouco de empatia? 
Por mais que a sétima arte se esforce em mostrar casais gays, lésbicas, trans, em narrativas comuns, há sempre o preconceito camuflado, principalmente na frase: "Não tenho nada contra, mas...".

É este "mas..." que nos fere a cada dia.
O "mas" é o que força inúmeros jovens, meninos e meninas a cometerem suicídio pelos simples fato de tentarem serem aceitos por pessoas que os veem apenas como motivo para que suas orações expulsem o que há neles de ruim.
Esse "mas" é o que deturpa profissionais, tentando afirmar que suas doutrinações causam mudanças nos comportamentos, fazendo que meninos deixem de usar azul e meninas abandonem os vestidos rosa.
Esse "mas" é maquiado de "moral e bons costumes", mesmas atitudes de quem está no governo de tudo e que se pudesse não teria pessoas como Garrard em seu país.
Esse "mas" é o mesmo que se faz pessoas olharem para produções cinematográficas como manifestações hereges, erguendo tochas e forcados no formato de celulares, espalhando notícias falsas como chamas da inquisição, sem sequer terem colocado o pé no cinema!

Boy Erased não passará nos cinemas brasileiros, fazendo com que a história de mais de 70 mil jovens que ainda se encontram presos em locais de tortura nos Estados Unidos, não seja escutada.
Ao mesmo tempo, que a tal igreja celebra essa "vitória", existe outro tipo de "Igreja"(são poucas) que se ergue, em forma de pessoas, que amam as outras incondicionalmente, que vão até mesmo em paradas para pedir perdão pelas ofensas e maus tratos. Essa Igreja não é conhecida de muitos, não interessa a mídia, pois o que vale mais, se tratando de Brasil, é o púlpito, o palco, o show e a ofensa! O que é cômico e trágico ao mesmo tempo, que o Salvador era justamente quem convivia com a prostituta, com o ladrão, com o pobre, com o depressivo, com o excluído, e não foram esses que o crucificaram! Mas isso não se pode falar e a arte não pode mostrar!

O cinema sim é local de fala para muitos e muitas Garrard's que ainda se encontram presos, sem voz, jogados, com histórias que precisam ser contadas, reveladas, expostas. Tais personagem precisam surgir e devem ser lembrados. 
Em nosso país, a produção ganhou o subtítulo de "Uma verdade anulada", nada faz tanto sentido, nada se encaixou da pior forma possível nesse caso, porém fica o questionamento: 
A verdade de quem tem sido anulada para que a de outro se sobressaia? É de se pensar!

Jesus continua sendo um cara muito legal, quem continua ferrando tudo é o fã clube!
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