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Bird Box - CRÍTICA

Longa adapta de forma competente a obra homônima, mas o formato streaming prejudica sua execução



Do que temos medo de verdade?
Quais os nossos maiores pesadelos?
Parecem perguntas que um analista faria em uma sessão onde se poderia tratar algum tipo de trauma, mas é nesse viés que Bird Box tenta trabalhar com seus espectadores. Ainda mais colocando restrições físicas, como a impossibilidade de enxergar. Assim, o medo de algo que não se pode observar ganha proporções imensuráveis em uma demonstração de uso dos outros sentidos pela sobrevivência, por isso lembre-se de amarrar bem a sua venda, e caso algo aconteça: Não abra os olhos!

Malorie tem dois filhos pequenos e precisa encontrar um abrigo para sua família. Por quê? Porque algo que não se pode observar está a sua volta, um pequeno vislumbre nessas "coisas" pode lhes causar a morte. Desta forma, tanto as crianças, quanto ela, estão em um barco no rio, a procura desse lugar seguro e aos poucos vamos entendendo o que os levaram até ali, o que aconteceu as outras pessoas e o que é este perigo que não se pode avistar!

Susanne Bier comanda a produção que adapta o primeiro romance do escritor Josh Malerman, lançado em 2014, de forma assertiva e competente, mas que acaba limitada por conta do serviço de streaming. A direção escolhe planos abertos para demonstrar o perigo que se aproxima, ousando em criar um efeito interessante para a chegada as "criaturas" tanto visualmente, quanto no som que mistura diversas melodias, vozes, beirando um incômodo constante, ao mesmo tempo que intercala com tomadas que fixam no rosto da personagem, fazendo assim que a sensação do espectador esteja voltada para os demais sentidos da protagonista, e não para sua visão impossibilitada.
Junte isso a uma fotografia cinzenta mesclada com uma luminosidade que valoriza os ambientes que precisam ser percorridos, e uma violência gráfica, ora grotesca, ora contida pelos cortes, mas que tem sua dose de terror ao ouvirmos apenas o som dos ataques, ou de forma desfocada vermos alguém morrer. Nisso, a diretora parece utilizar elementos que encontramos em Um Lugar Silencioso, Corra e A Bruxa, ao evocar um terror voltado para aquilo que é psicológico, inerente ao ser humano, do que propriamente os monstros que os cercam. 

Esta escolha faz jus ao material original com exatidão e acerto!
A narrativa não está preocupada em mostrar o que são as tais "entidades" que causam nas pessoas as atitudes suicidas, mas sim mostrar o quão limitadas as pessoas são quando se veem em uma situação de perigo extremo, em compasso, tendo que lidar com suas próprias escolhas, sentimentos e até mesmo, o que fazer quando outra vida depende de você. Acima de qualquer coisa, o longa é sobre uma jornada maternal, a descoberta de poder amar e preocupar-se com o outro. 
E o quanto essa transformação de pensamento individual para o coletivo pode colocar a segurança de todos em risco ou não (Fique atento a questão dos nomes das crianças e o momento em que recebem). Por isso, temos duas linhas narrativas acontecendo, onde sabemos os eventos que levaram Malorie até o rio e o que ocorre com a mãe, as duas crianças, em meio a um ambiente que, até então, exigiria todos os sentidos funcionando.
A película então percorre as quase 300 páginas do livro sem deixar nenhum dos elementos de fora, apenas com algumas alterações que estão lá para dar um tom mais dinâmico aos momentos cruciais da trama, como o parto da protagonista e de Olympia, a ida ao supermercado local e chegada de um último sobrevivente. Alterações aceitáveis e compressíveis para o que a narrativa está contando.


Porém, para conseguir chegar ao momento onde a atenção de todos está voltada apenas para o longa, temos que percorrer longos quarenta minutos iniciais que não ajudam a estabelecer o perigo e muito menos a dinâmica entre seus personagens. Logo que esse tempo acaba, tudo parece mudar complemente, desde o comando da câmera, às atuações, e isso pode fazer com que algumas pessoas desistam de dar continuidade a história. Ademais, o filme acaba sofrendo com o seu lançamento no serviço de catálogos on-line, pois tudo aparentou ter sido realizado para algo maior, como uma sala de cinema, onde imagem e som em alta potência valorizariam ainda mais as tomadas na floresta, a aproximação das "criaturas" e os momentos de sobrevivência. 

E quem acaba sofrendo um pouco com essa escolha é o elenco.
Sandra Bullock é o maior nome entre os atores, tanto em presença quanto em entrega. Sua protagonista sofre, se faz apática, e vai se transformando a medida que vamos avançando nessa jornada pela vida conquistando totalmente nossa empatia e torcida para que se mantenha a salvo.
Sarah Paulson, ainda que pontual, entrega uma das cenas mais angustiantes do cinema em 2018, o olhar da atriz em meio ao caos é algo hipnotizante e assustador (Alguém dê um filme só pra ela protagonizar, por favor!).
Os demais, são caricatos, exagerados, desnecessários, principalmente John Malkovich que parece ter esquecido como se atua, ou simplesmente, não ligava para o que estava fazendo durante a produção.

Bird Box é uma ótima adaptação que mantém a estrutura do seu material original, ainda que com alterações, não foge do que a história quer demonstrar: uma jornada pela sobrevivência, ao mesmo tempo que é necessário descobrir como gerar um sentimento que vá além do individual. 
Com uma direção que elabora bons artifícios para mostrar ao espectador as limitações da narrativa, uma edição e mixagem de som que contribuem para a atmosfera de perigo e uma câmera que captura o ponto de vista de forma correta, a produção apenas fica presa ao seu lançamento, que será feito em equipamentos que não fazem jus ao que a parte técnica tenta nos entregar.
Ao final, o pavor se transforma em alívio e esperança, ao mesmo tempo que fica claro o quão limitados os seres humanos podem ser, principalmente quando a salvação vem por quem, talvez, outrora fosse considerado incapaz! O que nos faz entender que os olhos fechados de alguns, são mais perceptíveis a tudo do que aqueles com capacidade plena. Logo, fechar os olhos não pareceu algo tão ruim!

Nota: 4/5 (Ótimo)
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