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Halloween, uma ode ao terror

O que John Carpenter fez na época, dificilmente é repetido hoje em dia


Pouco mais de dez minutos de filme, vemos Laurie a caminho da escola, após ela conversar com o menino de quem tomará conta naquela noite de Dia das Bruxas, a jovem segue seu caminho pela calçada, cantarolando uma música. A câmera trabalha esse afastamento na imagem, lá se vai a adolescente, logo o que temos entrando no quadro é um figura, mas vemos tudo através de seu ombro, a música aumenta junto a respiração ofegante daquele que causará em Laurie momentos terríveis nas próximas horas. E nessa construção da tensão, Halloween fundamenta um subgênero do terror nos cinemas, com uma produção intocável até hoje.

O primeiro Halloween, de 1978, dirigido por John Carpenter, conta a história de Michael Myers, uma criança que na noite do dia das bruxas mata a irmã mais velha a facadas. Quinze anos depois ele escapa de uma instituição psiquiátrica e retorna a sua cidade para continuar a matança que deu início, assim, o seu caminho cruzará com a jovem Laurie Strode, que tentará sobreviver aos ataques do maníaco.

Esse resumo básico da trama do primeiro filme não faz jus ao trabalho realizado pelo diretor, que também assina o roteiro. Carpenter executa aqui uma sinfonia de horror onde a atmosfera macabra e soturna permeará a narrativa, ao mesmo tempo que entregará sequências onde as personagens certamente não sairão em segurança. A direção utiliza de planos longos, até mesmo de planos sequência, para que tenhamos o entendimento de que o perigo é prolongado, nada aqui é rápido, ou entregue de qualquer forma, o medo é um sentimento que vai sendo construído a medida que uma silhueta é vista passando na janela, alguém num carro estranho pela rua, uma figura que se esconde atrás de arbustos ou parada do outro lado da rua. O jogo de perseguidor e vítima é estabelecido de forma inteligente, a ponto do maníaco esperar as vítimas realizarem seu próximo movimento, para que assim o dele se torne um "xeque-mate". Tudo isso, acompanhado de uma trilha sonora que enaltece a tensão, o compasso de 5/4 utilizado pelo diretor, cresce a medida que a história vai se desenvolvendo, utilizado as vezes sutilmente, em outros momentos, antecipa o terror em tela, não como um jump-scare, mas como um adendo a todo o clima aterrador já estabelecido.


O roteiro é uma obra que talvez hoje em dia não agrade o público que necessita de inúmeras explicações e didatismo quase que automático. O que sabemos é o que as personagens sabem, o que acompanhamos é o que eles acompanham e se há alguma revelação ela está pautada em situações que requerem atenção de quem está assistindo. A narrativa não está interessada em explicar comportamentos ou qualquer tipo de vínculo emocional (isso ficou para as continuações), o que está em foco aqui é um protagonista assassino, movido pelo prazer de matar, imparável e quase que onipresente diversas vezes. Junto a isso, temos uma protagonista jovem, que deseja sobreviver, fica aterrorizada, grita a ponto de ganhar um reinado em cima dessa qualidade, mas ao mesmo tempo luta para continuar viva. Nessa dicotomia de personalidades, os embates entre os dois se tornam o auge da trama, novamente, a música tema faz com que o medo se torne cíclico nessas horas, pois mesmo quando Laurie se vê a salvo, o som não para, deixando claro que o perigo não acabou, não se desfez.

É este perigo e medo que faz desta película uma ode ao cinema de terror.
Toda a construção de tensão e pavor psicológico faz de Halloween um ícone do que chamamos hoje de Slasher Films, pautado numa, quase sobrenatural, luta contra um serial killer. Os mais de 90 minutos estabelecem não apenas um novo personagem para causar medo, mas uma história que facilmente poderia ocorrer em qualquer lugar, daquele mesmo jeito, com ou nenhum sobrevivente. E este é um trunfo da obra de John Carpenter, firmar um pavor recorrente, que pode se achegar de qualquer lugar e acontecer onde menos se espera, mesmo tendo a convicção de que aquilo jamais iria assombrar novamente, há sempre um jeito dele retornar.

Quando Laurie pensa ter dado um fim no "Bicho-Papão" ela é lembrada que essa entidade não pode ser morta. A frase soa como uma metáfora do que viria a ser a sua vida nos próximos momentos, a sua sobrevivência aos ataques de Michael Myers estava apenas sendo o começo de um legado de terror, que até hoje se estende pela sétima arte e que dificilmente alguém irá realizar da mesma forma.
Se a noite do dia das bruxas sempre foi um momento de diversão, brincadeiras e doces, para tudo o que ocorreu em Haddonfield a noite se tornou ainda mais escura, macabra e repleta de sangue de inocentes derramado. E Michael dará um jeito repetir o que fez, ele consegue escapar, ele sempre volta.
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