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Assédio - CRÍTICA


Em 2009, o médico Roger Abdelmassih foi acusado de abusar sexualmente de mais de 60 ex-pacientes. Em 2011, ele foi condenado por pelo menos 52 estupros, porém antes de ser preso ele fugiu do país, apenas três anos mais tarde ele foi encontrado e finalmente preso pela polícia federal. Quase nove anos depois do início desse escândalo nacional, Maria Camargo entrega ao streaming da Globo a série Assédio, baseada livremente nesse caso extremamente repugnante.

Em Assédio, o médico especialista em reprodução humana Roger Sadala (Antonio Calloni), extremamente respeitado, conhecido e ironicamente apelidado de “Dr. Vida”, acaba sendo acusado por diversas vítimas de assédio e estupro. 
Ele é procurado por diversos casais com o sonho de construir uma família, porém muitas delas quando cruzam o caminho do doutor, acabam tendo suas vidas destruídas. 

Em cada episódio de Assédio, cada uma dessas mulheres conta como foi a terrível experiência de terem sido assistidas pelo infame doutor, relatam suas experiências, cada uma a sua maneira e diferentes contextos das situações.
Não tem como assistir essa série sem um nó na garganta em cada minuto que passa. Tudo é milimetricamente construído para que o espectador se sinta extremamente incomodado com o que está vendo. A fotografia é extremamente fria, morta, sem vida, e o ambiente é claustrofóbico. E isso reflete muito das vivências daquelas mulheres, obrigadas a viver em silêncio dentro de si mesmas.

A direção é impecável quando quer mostrar o quão mórbido e nojento é o estupro. Talvez as cenas de estupro (de mulheres) que a gente vê as vezes não chocam o bastante, e algumas até mesmo tem uma conotação um tanto erótica. Em assédio por outro lado não existe isso de forma alguma e por isso, está visível a mão feminina nesse projeto. O que confirma meu pensamento que a representatividade por trás das câmeras também é extremamente importante.


Outra questão relevante é construção dos personagens e combinado a isso, quem dá vida a eles. 
Stela é a primeira mulher a contar sua história e também uma das primeiras a ser vítima de Roger. Com esse personagem a série consegue destrinchar e explicar as várias fases do estupro, o nojo de si mesmo, a negação, depressão, o afastamento das pessoas, morte dos sonhos. Isso tudo graças a mais um trabalho impecável de Adriana Esteves, que dá vida a personagem. 
Mira interpretada por Elisa Volpatto é a obstinada jornalista que tem como objetivo de vida desmascarar o médico, ela representa a nossa vontade de que aquele monstro pague pelo que ele fez e por isso depositamos toda a nossa esperança nela, e a assim como a personagem, acabamos esquecendo que ela também tem uma vida além da sua carreira, o que traz mais tarde um grande dilema moral pra personagem. Entretanto, o mais incrível é como Antonio Calloni consegue absorver e despejar toda a arrogância, sentimento de superioridade de Roger Sadala em nós. O ator entrega um personagem completamente detestável, sem pudor e repugnante. Saber ainda que ele é baseado e inspirado em uma pessoa real, faz com que o asco só se amplifique.

A série aborda ainda o silenciamento da mulher. 
Por diversas vezes que as personagens tentam buscar ajuda para trazer a verdade a tona, elas são silenciadas, desmerecidas e até relativizadas, como se o assédio que sofreram não fosse pra tanto. O mais triste é pensar que isso é muito comum nesses caso, e por isso muitas mulheres não se sentem nem um pouco encorajadas a denunciar seus agressores.


Assédio é uma boa surpresa, tanto pelo relevância social que carrega quanto pela excelência técnica. O pior de tudo é saber que a inspiração para essa série se encontra em prisão domiciliar em sua cobertura em uma região nobre de São Paulo com sua esposa! Livre! Algo que suas vítimas nunca mais vão poder se sentir novamente.
Triste e revoltante!
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