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22 de Julho - CRÍTICA

Em tempos de extremismo, uma história real será capaz de comover?



Quando o personagem responsável pelos ataques é interrogado pela primeira vez, há toda uma demonstração de crueldade e frieza na atuação. A falta de expressões, misturada ao tom de voz empregado do forma objetiva, deixa claro que o discurso de convencimento poderia ser facilmente comprado por qualquer um. Desta forma o diretor Paul Greengrass nos lembra um fato que ocorreu há menos de dez anos, onde as ideias mais extremas podem levar o ser humano a cometer os piores atos possíveis. E o que mais assusta, é que as palavras transformadas em falas do roteiro, aconteceram de verdade.

Em 22 de julho de 2011, Anders Behring Breivik, que argumentou querer atacar o multiculturalismo, detonou uma bomba perto da sede do governo em Oslo e, em seguida, abriu fogo em um encontro de jovens trabalhistas na ilha de Utoya, cerca de trinta quilômetros da capital norueguesa. Matando 77 pessoas, ferindo mais de cem.
A narrativa nos apresenta os fatos a partir de um dia antes dos ataques, o momento do atentado em Oslo, logo, o massacre no acampamento. Desta forma seguimos permeando a recuperação dos sobreviventes e o julgamento do assassino.

Paul Greengrass faz quase um trabalho documental neste que é um dos longas mais densos e tristes de sua carreira. O diretor utiliza de uma movimentação precisa, rápida no primeiro ato do longa, onde os ataques são explicitados, de tal forma a não poupar a crueldade, em sequências poderão fazer o espectador sentir um total desconforto e apreensão pelo o que ocorreu. Ao mesmo tempo, quando o segundo e terceiro ato mesclam a recuperação de uma das vítimas, a preparação para o julgamento de Anders, somos entregues a uma dualidade em tela que chega ser incômoda. Trabalhando quase que em um ritmo de movimentos gestuais semelhantes, vítima e algoz vão criando momentos onde a direção enaltece suas expressões, falas, tornando alguns ambientes conhecidos inóspitos e até cruéis, como uma quadra de esportes.
Tudo isso relacionado ao trabalho narrativo que conta a história do dia 22 de julho e suas consequências sem deixar de lado aspectos políticos. Toda a movimentação do gabinete do Primeiro Ministro, além das ações das famílias são apresentadas fazendo com que todo o contexto dos dias que vieram pós os ataques ganhem vida e o peso necessários para que o roteiro ganhe ritmo. 


Esse ritmo principalmente se torna algo incômodo e imersivo para quem está assistindo.
A história é contada com tamanha verdade, graças as camadas que vão sendo apresentadas de cada uma das personagens, que o espectador, mesmo sabendo que aquilo de fato ocorreu, abraça a ideia e a luta de cada um que sofreu nas mãos do maniaco.
Desta forma o diretor, que também assina o roteiro, apresenta, não de forma grosseira e agressiva, mas de um jeito objetivo e até com uma sutileza constrangedora as razões sociais e políticas para que os ataques viessem acontecer. Pautados em afirmativas de outros momentos como a fala da mãe de Anders ou uma testemunha de defesa.

Mas nada disso seria possível sem três atuações importantíssimas para que essa história funcionasse em tela.
Anders Danielsen Lie, que dá vida ao assassino, surge em tela de forma a conquistar toda antipatia que há em quem assiste. Sua frieza, crueldade e nenhum resquício de humanidade salta em tela causando um desconforto a cada fala que pronuncia, a cada ideia dita, o que arrebata ainda mais os bons momentos de atuação para si.
Jonas Strand Gravli possui um um arco de superação quase que impossível para o seu Viljar, que aos poucos vai ganhando ainda mais espaço na trama, deixando os clichês de lado e trazendo um grande momento ao terceiro ato da trama.
Já Jon Øigarden, que dá vida ao advogado de Anders, é quem perambula mais pelas camadas entre demonstrar os sentimentos e manter-se quase inerte aos acontecimentos, é perceptível no olhar os pensamentos quando o mesmo está em cena com o personagem que causou todo o sofrimento da história.

22 de Julho é um longa baseado em fatos reais quase que documental.
Não apenas por sua estética ou pela escolha de certos planos do diretor, mas na capacidade de contar uma história real com tamanha proximidade do que de fato ocorreu na Noruega em 2011. Logicamente, o trabalho exímio na condução de elenco e produção fazem deste uma surpresa boa, ainda que com uma narrativa capaz de deixar qualquer um comovido, triste e pensativo.
Carregando então uma trama política e um discurso de mesmo peso, é impossível que a película passe despercebida por aqueles que entendem a necessidade de se contar tais fatos, e que os mesmos não podem ser esquecidos, pois pessoas ainda lutam para continuar vivas, apesar de ideias extremistas ainda se colocarem em oposição.
O Cinema precisa contar essas histórias. Essas histórias não podem ser esquecidas!

Nota: 4,5/5 (Sensacional)
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