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Sharp Objects - CRÍTICA

O poder de protagonizar uma história em 2018 tem um nome: Amy Adams


Em um determinado momento onde Camille percorre as ruas da pequena cidade de Wind Gap, as lembranças do seu passado surgem. Os flashes do que aconteceu em sua época de adolescente vão se misturando as ações do presente, o semblante da jovem jornalista se modifica, ora sério, ora totalmente perdido, envolto a dúvidas e a um medo descomunal de revirar situações deixadas para trás. E a medida que câmera faz o trabalho de acompanhar cada passo da protagonista, somos entregues a um trabalho de atuação e direção que em poucas produções podemos encontrar. Amy Adams é incrível!

Camille é uma jovem jornalista que precisa retornar a sua cidade natal quando desaparecimentos e assassinatos envolvendo as adolescentes que lá moram começam a acontecer. Atormentada ainda pelo seu passado tempestuoso, a repórter irá entrar em um jogo que não envolve apenas os mistérios dos crimes, mas do seu passado com a cidade, com os habitantes e com sua família.

O diretor Jean-Marc Vallée, que fez um ótimo trabalho em Big Little Lies, aproveitando as subtramas, enaltecendo as atuações, desta vez demonstra toda sua capacidade de adaptar uma obra da literatura, ousando nas peculiaridades e abusando da personalidade na hora de narrar os acontecimentos da cidade. Sua câmera, que varia entre a perspectiva de primeira pessoa misturado a planos abertos, gera no espectador uma sensação incômoda, onde os acontecimentos não são apenas resultados da atmosfera criada até então, há algo muito mais profundo. A fotografia então enaltece o clima quente e abafado, ajudando a trazer uma sensação quase claustrofóbica em determinados ambientes. Tudo isso abraçado a uma forma de contar a história sem a preocupação de entregar tudo de uma vez só.

Criticada por seu ritmo um tanto quanto lento, em comparação a outras histórias do gênero, o roteiro e direção caminharam lado a lado para que justamente o espectador fosse sendo aos poucos capturado por tudo aquilo que acontecia em Wind Gap. Um dos grandes trunfos da produção é justamente nos fazer adentrar aos pensamentos, traumas e passado de Camille. Tudo isso com vários momentos onde assuntos delicados como depressão, abuso, sexismo, automutilação surgem em tela, de maneira nada a poupar os detalhes da situação em destaque. E assim, os conflitos principais, em paralelo aos desparecimentos e assassinatos, se misturam a necessidade de enfrentar questões ainda não resolvidas do passado, a busca por controlar a vida de quem está a sua volta, e a aparente falta de preocupação com que dizem a respeito de suas ações.

Tais ações demonstram uma construção emblemática dos personagens. 
Ali ninguém é perfeito, ou por mais que tente demonstrar um domínio absoluto sobre a vida, algo sempre vem ao encontro, quebrando toda a aparência, literalmente, cortando a camada superficial e entregando falhas atrás de falhas produzidas pela protagonista e os demais coadjuvantes. 
Nisso, um sofrimento generalizado se espalha, as vezes fica nítido nas expressões, outrora, é encoberto por posturas, trejeitos e enigmas. E por mais que alguns possíveis esteriótipos de histórias de assassinato estejam presentes como a mãe perfeita e controladora, o pai omisso, o detetive de outra cidade disposto a resolver o mistério, a jornalista e o Xerife que aparenta saber de tudo, tudo é desconstruído a medida que percorremos, ao lado de Camille, as ruas da cidade, entramos nos bares e voltamos pra residência dos Preakers.

E falando em Camille, Amy Adams é o grande nome da série!
Sua protagonista demonstra toda a carga emocional que necessita ao revisitar lugares que lhes causaram algum tipo de ferida. Sem poupar esforços, a atuação de Adams mergulha no material desenvolvido por Gillian Flynn de forma gradativa, enaltecendo as crises, expondo os traumas e a síndrome de automutilação. A atriz, com apenas um olhar, consegue entregar dor, angústia, raiva e impotência inúmeras vezes, garantindo e entregando a melhor performance, até então, em uma série de televisão de 2018. Não podemos deixar de citar Patricia Clarkson, a enigmática, irritante e sufocante Adora, consegue impor sua presença em momentos que chegam a ser assustadores, elevando ainda mais sua aura de antagonista na vida de Camille.

Sharp Objects é uma adaptação brilhante do material original!
Com mudanças razoáveis e aceitáveis na trama principal, uma direção repleta de individualismos que trabalha com os enigmas de maneira crescente, sem a necessidade de expor todas as respostas de forma abrupta ou apressada, a produção ganha espaço e se fundamenta como uma das melhores já criadas pela HBO. E se tudo ainda não foi respondido, ou não era o suficiente para quem assistir, é fácil perambular pelas nuances deixadas no decorrer da história, que vão demonstrando a capacidade do ser humano de deixar marcas na vida dos outros, feridas, de causar um sofrimento que perturba, modifica e traumatiza. Tudo isso levando quem está próximo a duas posições, de controlador e controlado. Há um jeito para se livrar de tudo, mas ninguém quer abrir as feridas, pois a cicatrização é um processo longo, doloroso, podendo envolver diversas pessoas, do passado e do presente.
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