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(Des)encanto - Crítica

Faltou algo para se tornar tão icônico quanto os Simpsons


O grande problema de produções diferentes de um mesmo autor é o grau de comparação e expectativa que se deposita em tal. Pois o marketing em torno da divulgação sempre irá salientar e confirmar várias vezes que aquele produto é de tal pessoa, que fez tal coisa de sucesso e que agora está em outro universo. (Des)encanto, série original de animação da Netflix, sofre com essa mazela, de tentar se sustentar a partir de um nome conhecido, mas com uma temática diferente. Pensando bem não é só o legado do criador que pesa neste desenho.

Bean é a princesa da Terra dos Sonhos, reino encantado nada convencional de uma era onde magia e seres fantásticos estão por aí. Porém, seu pai, o rei Zog, quer que a mesma se case, para consolidar ainda mais as alianças do local, mas nada disso está nos planos da jovem, que parte em diversas jornadas ao lado do seu demônio pessoal, Luci e de um elfo, chamado Elfo!

Dirigida por Albert Calleros, Peter Avanzino, Brian Sheesley  Dwayne Carey-Hill, Frank Marino, Wesley Archer, David D. Au, Ira Sherak, com criação e produção de Matt Groening e Josh Weinstein, a aventura dos criadores de Futurama e Os Simpsons não entrega tudo aquilo que promete em sua campanha de divulgação. O reindo da Terra dos Sonhos é interessante, repleto de características únicas e outras que são referências diretas a Game Of Thrones, O Senhor dos Anéis, e tantas outras obras da cultura pop. Sendo assim, há toda a capacidade de deturpar e modificar ainda mais tais histórias seja com simples falas ou até com ações dos personagens. De crença em deuses, magia e ordens do rei, tudo é questionável, absurdo e constrangedor.

E por mais que o foco da trama seja a capacidade da princesa de ir contra aos modelos estabelecidos pela sociedade medieval lá encontrada, o roteiro não sabe ao certo como explorar tais pontos.
A narrativa percorre um caminho estranho quando falamos das características da protagonista, ora Bean é autosuficiente, convicta de suas escolhas, ora cai nos desejos, e até comentários comuns, de uma princesa de conto de fadas qualquer. Pode ser entendido como um artifício para demonstrar os conflitos da personagem, porém soam mais como uma falha na construção de sua personalidade.

O humor ácido, marca de outras criações de Groening, se faz presente em diversos momentos. Desde o discurso do rei, as declarações da rainha, as atitudes da princesa. Todos os atos possuem consequências, e estas sempre irão fazer alguém pagar por algo ainda pior. E as piadas, consideradas de humor negro, aproveitam desse momento para ganharem destaque. Entretanto, quando nos encontramos assistindo ao sexto episódio, o grau de previsibilidade dos momentos cômicos é tão alto, que já fica até fácil saber o que vai acontecer na próxima cena. Não que as risadas acabem, mas não são tão intensas quanto no início da trama.


O destaque mesmo fica por conta da dublagem brasileira!
O arsenal de memes utilizados para adaptar certas piadas fazem das sequências em questão divertidas, inusitadas e até então surpreendentes para quem está acompanhando. Quando um "morre, diabo" é solto, ou um "gostosinho no azeite", e ainda "Irineu" é dito, é possível sentir que os dubladores brasileiros são exímios no que fazem, e por isso, a série ganha um valor cômico ainda maior, pois as inserções dos jargões não são meras referências, fazem jus as cenas e os acontecimentos que estão atreladas.

(Des)encanto é divertida, sagaz, mas não consegue entregar aquilo tanto o seu marketing demonstrou nas peças de divulgação. Por mais a protagonista seja interessante, e carregue valores que estão em alta nas discussões da sociedade, faltou realmente fazer disso um artifício que gerasse maior empatia. Por outro lado, as traduções no Brasil abraçadas a todos os memes possíveis, elevam o patamar cômico da produção, contribuindo para tirar da monotonia alguns momentos da série.
Ao final desta primeira parte, ficam as pontas soltas, inúmeras respostas que precisam ser ditas e a sensação que algo ainda está pendente no emaranhado de referências e momentos absurdos. O problema não é fazer parte de um legado que já carrega vários sucessos, o problema mesmo é fazer alarde e não entregar o que se espera de fato! Mesmo assim, há um encanto peculiar em (Des)encanto!
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