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Ilha dos Cachorros - CRÍTICA

Se em 2019 este filme não ganhar o Oscar de melhor animação, teremos uma grande injustiça



Wes Anderson tem uma visão particular do mundo. As vezes, as obras do diretor parecem se distanciar do que é corriqueiro, carregando uma carga emocional ímpar em relação a visão de tudo o que ocorre a nossa volta. Dessa vez, ao explorar diversas questões da vida, envolvendo as relações humanas, políticas, meio ambiente e os sentimentos em inúmeras formas, o diretor entrega um obra tão esplêndida tecnicamente, que a possibilidade de desbancar a hegemonia de um certo camundongo das premiações do cinema, pode estar bem próxima.

Num futuro, em uma cidade fictícia do Japão chamada Megasaki, o prefeito Kobayashi decide expulsar todos os cães, por conta de um surto de doenças e insetos, enviando-os para um lixão chamado Trash Island. Seis meses depois desta decisão, o sobrinho do prefeito, Atari, decide ir até o local para resgatar o seu cão Spot, enviado por primeiro a ilha, e lá o rapaz encontra Rex, King, Duke, Boss e Chief, cachorros também banidos, que irão ajudar na busca, logicamente, se envolvendo numa trama ainda mais perigosa.

Wes Anderson eleva o nível do seu trabalho realizado em O Fantástico Sr. Raposo.
Toda movimentação de personagens, expressões, texturas, tudo é precisamente demonstrado de forma exímia, com uma câmera simetricamente posicionada para capturar toda a fluidez. Os detalhes de cada cenário, personagem, a forma como o vento balança tecidos e pelos é algo de deixar o espectador abismado no estilo de execução da produção. Tudo é delicado, sutil, icônico. O diretor utiliza do seu jeito peculiar para criar momentos e dar um tom às vezes cartunesco as situações, como a disputa por comida entre os cachorros que abre a película, onde uma nuvem que os envolve durante a briga o que deixa tudo mais fantasioso e lúdico. Junte isso a uma trilha sonora composta por Alexandre Desplat, totalmente imersa nas percussões japonesas que referenciam outras obras cinematográficas como Os Sete Samurais, de 1954.

Tudo isso envolto a um roteiro que em todo tempo critica, expõem e exemplifica inúmeras situações do nosso cotidiano através desta "fábula" com "quatro patas". É impossível não relacionar as atitudes do prefeito com algumas personalidades governamentais que estão no poder atualmente, carregadas de discursos extremistas, tomados por ações de exclusão. Ao mesmo tempo, a narrativa nos remete aos sentimentos de fidelidade, empatia, companheirismo e coragem, a medida que vamos avançando na história. Que por sua vez deixa bem claro a visão do diretor a cerca dos excluídos, jogados e esquecidos pela sociedade, demonstrando também como uma população pode ser facilmente manipulada por alguém que é reconhecido como "benfeitor", a ponto de abandonar e colocar para fora do seu convívio quem não se "encaixa" no que dizem ser correto.


Logicamente, a produção possui suas discrepâncias, como uma obviedade a partir do segundo capítulo da trama (O filme é dividido em quatro capítulos), que leva a um desfecho previsível e alguns personagens que se perdem em meio ao roteiro, não apresentando motivações ou camadas para que seja gerado um determinado apego. Entretanto, tudo isso se perde no envolvimento que a narrativa possui, tornando impossível a falta de identificação, principalmente pra quem é ou já foi dono, amigo, companheiro de um cachorro na vida. Isso fica ainda mais óbvio pela escolha em não se traduzir determinadas falas dos personagens orientais, deixando com que a "voz" dos cães se sobressaia e suas feições expressem o que o texto quer causar no espectador.

Ilhas dos Cachorros é uma verdadeira a ode ao cinema executado com maestria, que eleva as técnicas já desenvolvida em stop-motion, fazendo com que tudo se torne um grande espetáculo japonês (Fica a teu critério avaliar a película como Apropriação Cultural ou não. Eu já tenho o meu ponto de vista sobre esse fato), evocando artistas de outras épocas, fundamentando uma crítica político-social e enaltecendo sentimentos. Se hoje pudéssemos classificar as grandes produções da animação, certamente o nome de Wes Anderson e desta sua história estariam nesse ranking, pois entre os movimentos quase que reais de suas personagens e seu discurso que nos remete a amizade, companheirismo, tudo isso em compasso a uma trilha sonora envolvente, não há possibilidade de uma obra neste nível passar despercebida.
Então, se em 2019, Rex, King, Duke, Boss e Chief não forem lembrados nas grandes premiações, não teremos apenas uma injustiça a nível de estatuetas, mas uma injustiça a nível de cinema executado com paixão, magia e brilhantismo! Com certeza a melhor animação de 2018, até o momento!

Nota: 5/5 (F*DA PR# CARALH*)
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