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Hereditário - CRÍTICA

Tensão em mais de 120 minutos de história


O que se entende por um bom filme de terror?
Será aquele que nos faz saltar da cadeira a cada cinco minutos com sustos embasados na trilha sonora ou aquele que cria uma atmosfera, através de sua narrativa, que captura a atenção do espectador? As duas formas podem contem ótimas histórias do gênero e quando utilizadas em conjunto podem gerar um novo clássico. 
Hereditário foi vendido como o filme mais assustador dos últimos tempos do cinema, é desta forma? Não, mas certamente jamais passará despercebido daquele que aprecia histórias amedrontadoras.

Annie acaba de perder sua mãe, com quem nunca teve um relacionamento fácil ou próximo. Com a morte, a família passa a se desestabilizar, como se a presença da avó ainda estivesse próximo a eles. Ao mesmo tempo algo de estranho ocorre com a filha mais nova, Charlie, a qual sempre foi cuidada pela matriarca falecida e isso desencadeia uma série de situações bizarras, colocando a vida de todos os membros da família em perigo.

Ari Aster comanda a película de uma maneira ímpar no gênero do terror!
O diretor, por mais que não goste de rotular sua obra, bebe e utiliza dos elementos clássicos deste tipo de material, porém de uma forma a subverter tudo aquilo que se espera das situações que causam medo e espanto. A câmera, que começa sempre em planos abertos e aos poucos vai se aproximando dos atores, cria toda uma atmosfera enclausuradora, principalmente pela casa que serve de cenário, ser um ambiente amplo, mas ao mesmo tempo produz uma sensação claustrofóbica, não causada pelos elementos de cena, sim pela tensão que transpõem a tela, capturando o espectador. Nisso também se encaixa a trilha sonora, que em momentos começa com um pequeno ruído, cresce num instrumental ensurdecedor, passa pelo som do estalar de língua de umas personagens e retorna ao pequeno ruído inicial. A construção de todo clima de pavor se dá gradativamente, utilizando ferramentas no roteiro que quebram a expectativa, brincam com as percepções e principalmente não submetem ao susto pelo susto! Tudo evolui para um clímax esperado, porém completamente diferente do corriqueiro que gênero já apresentou.

A narrativa então nos entrega não uma história de horror comum, com elementos espirituais, demônios ou possessões, a temática aqui é como as relações desestabilizadas abrem portas para um mal que pode se manifestar de diferentes formas. Sendo assim, o casal que se trata de forma indiferente, o filho que se sente ameaçado pela própria mãe, a filha introspectiva que se reserva em seu próprio mundo, tudo isso permite com que as tais manifestações bizarras aconteçam em uma história que vai aos poucos nos entregando pontos importantes, em compasso que deixa diversos elementos para livres interpretações.


Entretanto a produção perde força em seus minutos finais, quando tenta entregar todas as informações para quem já acompanhou a construção da trama. E certamente, não estava interessado em saber dos fatos, se até aquele instante nada havia sido explicado e ao mesmo tempo entendido, não era necessário colocar uma cena clichê de descoberta para uma possível "revelação". Logicamente isso não retira o brilhantismo do filme e de seu elenco.

Falando em elenco, Toni Collette nos presenteia com uma das melhores atuações em filme com temática de terror dos últimos tempos. A atriz, com suas expressões enérgicas e ao mesmo tempo amedrontadoras é uma manifestação de energia e pavor, capaz de em uma cena de jantar, através de suas falas causar mais medo que qualquer outra atividade paranormal (desculpem o trocadilho pobre).
Em contrapartida Gabriel Byrne sustenta toda parte cética e racional que a trama também quer apresentar, sua apatia misturada com os sentimentos que o personagem não releva, fazem de seus momentos algo incrivelmente pesaroso.
Alex Wolff funciona como um espectador de sua própria história, fazendo as veias de quem está sentando na poltrona muitas vezes, pois se a gente não grita, ele irá gritar e isso causa um aumento desconfortável na tensão.
E é Milly Shapiro que completa esses quatro lados de uma mesma história, utilizando a estranheza de sua personagem de diferentes formas, causando incômodos seja aparecendo em locais com luz baixa ou estalando a língua continuamente. A atriz é exímia para o terror sem se tornar caricata.

Hereditário não é a uma obra de terror para que você convide todos os seus amigos para a sala de cinema, pensando que irá rir dos sustos que eles irão tomar. É uma produção particular, que abraça a construção do horror, aumentando as doses de medo, não de forma explícita, mas gradativa e desconfortável. Apesar de cair no erro das explicações que são "necessárias", a película afirma que o cinema neste gênero pode sim contar histórias capazes de conduzir a atmosfera da sala de cinema através de clima obscuro, sufocante e tenso.
Ao sair da sessão, com as mãos geladas, ombros doloridos e a garganta seca, apenas exaltei novamente o poder da sétima arte de gerar experiências dessa forma, e sem querer espantar você, ouvi várias vezes o estalar da língua da personagem desde que o filme acabou! 
Isso sim é uma boa história de terror! 

Nota: 4,5/5 (Sensacional)
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