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Fahrenheit 451 - CRÍTICA

A modernização de uma obra carregada de ideologia nem sempre funciona

Aconteceu um episódio na cidade onde este site nasceu que se assemelha muito ao que Ray Bradbury escreveu no livro que inspira a história do filme. Um grupo de pais condenou a utilização de um determinado tipo de literatura em uma escola e isso fez com que aquelas obras fossem removidas da biblioteca. E até onde se sabe, os livros foram deixados em qualquer canto. Proibidos, amaldiçoados! A vida imitando a arte, que imita a vida.
Assim, a HBO nos apresenta a adaptação da distopia onde possuir qualquer tipo de escrito impresso é sinônimo de condenação, mas a intenção de aproximar o texto original com o público atual descaracteriza muito o que Bradbury criou.

Guy Montag é um bombeiro de Cleveland, porém ele não é pago para apagar incêndios, e sim para provocá-los. O seu batalhão, os Salamandras, anda pela cidade, sendo monitorados e tendo suas ações transmitidas pela web, a procura de quem possuir livros. Pois o Ministério, que comanda o país, condenou toda e qualquer forma de literatura impressa, quem for pego portando, é preso, as vezes morto e tem tudo o que possui ardendo em chamas. Entretanto, ao conhecer uma jovem, Guy começa se questionar a cerca das ações que pratica, do governo a sua volta e o seu passado.

Ramin Bahrani roteiriza e também dirige esta adaptação.
A escolha no comando da produção é transportar a história para o mais próximo da atualidade, com transmissões ao vivo acontecendo para todas as pessoas acompanharem as ações dos bombeiros, que são praticamente celebridades, expor o apego a internet e as informações que são transmitidas apenas de uma forma, além do clamor social por controle, neste caso um regime neofacista. O design de produção faz dos caminhões, dos uniformes e das ambientações um espetáculo visual, futurista e que bebe um pouco de Blade Runner em diversos momentos, onde a fotografia brinca com luminosidade neon, principalmente o azul e o vermelho. A direção escolhe por sempre focar nas expressões do atores enquanto as sequências de destruição pelas chamas ocorrem, fazendo com que isso aproxime o espectador das motivações e de como a nova forma de governo consegue o que quer.
A narrativa se propõem desde o início a fazer do texto original algo que seria plausível de ocorrer. A primeira sequência onde temos um discurso enérgico em uma escola, demonstra a doutrinação a cerca dos perigos dos livros na sociedade e como eles foram ferramentas para destruição, tal fala é recebida com empolgação pelas crianças. (Podemos fazer uma alusão em diversos discursos que ocorrem no nosso país e fora dele, não é mesmo?)

Entretanto o roteiro na sua tentativa de aproximar o espectador da história escrita em 1953, utiliza de diversos recursos atuais que na verdade soam mais como uma deturpação daquilo que Ray Bradbury nos trouxe. Logo, transforma, por exemplo, diversas falas de Montag no original, em simples ditos populares ou gritos de guerra totalmente fora de contexto. 
Ao mesmo tempo, o protagonista demora a desenvolver o seu caminho na narrativa, por conta de uma trama que o leva em diferentes lugares, como se rodasse em torno do ponto certo, mas para continuar focando no futurismo, enrola e preenche com situações nada empáticas até o clímax.

E isto prejudica a atuação!
Michael B. Jordan não transmite a jornada ou o crescimento de Guy como pessoa, consegue extrair muito da cama de Bombeiro, mas quando seu personagem entra na fase das descobertas a cerca de conhecimento e da vida, perdemos o ator para uma atuação sem emoção, automática e inexpressiva muitas vezes.
Sofia Boutella nos apresenta um contraponto interessante ao protagonista, muito vívida e coerente em suas escolhas, falta espaço na trama para conhecermos um pouco mais de sua rebelde, entretanto consegue fazer dos momentos ao lado de Michael, uma oportunidade para se sobressair em tela.
Já Michael Shannon é o vilão que amamos odiar, o ator transmite toda a devoção pelo governo totalitário, ao mesmo tempo que consegue apresentar características que enveredam para o âmbito do mistério, que mesmo ao não serem respondidas em sua totalidade, garantem um domínio e uma presença esmagadora em cena.

Fahrenheit 451 é o reflexo em forma de distopia de diversos acontecimentos atuais, onde muitas vezes precisamos lidar com uma espécie de censura, seja ela velada ou não. Contudo a necessidade de tornar o texto moderno para as gerações atuais de espectadores, transforma o material original adaptado em tela em uma distopia quase adolescente, onde o visual é o destaque, mas a história é esquecível.
Eis o grande problema desta adaptação, pois Bradbury nos alerta sobre os perigos de um dia termos nossas histórias, nossa criatividade, privadas, controladas, contidas por quem considera tudo isso uma ameaça aos padrões corretos. 
A película esquece deste alerta, mas ainda bem que a obra ainda persiste em continua viva, seja num escrito impresso, seja na mente de quem já leu. E isso as chamas não poderão consumir.

Nota: 3/5 (Bom)
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