Ads Top

Cargo - CRÍTICA

Um apocalipse zumbi intimista 


É impossível não citar George A. Romero quando se começa qualquer texto a cerca de filmes onde temos um apocalipse zumbi. Pelo simples( e também maravilhoso) fato do diretor ter revolucionado a forma de contar esse tipo de história, até mesmo criando elementos que fazem marte da mitologia dos seres mortos-vivos, sempre em compasso a uma crítica social contundente. 
Dito isso, Cargo é uma trama carregada de construções humanas em meio ao perigo iminente, que em certos momentos lembra obras do consagrado diretor citado, porém sem a mesma personalidade.

Andy é um pai de família tentando proteger quem ama.
Após terríveis perdas e se ver infectado por uma doença que transforma todos em mortos-vivos, o homem precisa manter sua pequena filha Rosie a salvo. Para isso, deverá percorrer diversos lugares para então encontrar quem possa o ajudar nessa jornada de sobrevivência, ao mesmo tempo, de descobertas e estreitamento familiar.

Yolanda Ramke e Ben Howling comandam a produção, deles também é o curta metragem que inspira esta nova obra da Netflix. A direção se atem em construir principalmente as relações entre os personagens, mostrando sua convivência, planos, motivações. Assim, estabelecendo os vínculos familiares e levando o espectador a uma atmosfera de preocupação por quem está em tela naquele momento. Sem a necessidade de se apegar a jump scares, a trama vai entregando as situações de perigo, em paralelo a uma trilha sonora que ajuda criar a tensão e o medo.
A narrativa, por mais que esteja inerte a um apocalipse zumbi, se faz a partir das atitudes e reações das personagens. Não é um simples filmes onde criaturas em fase de decomposição correm ou se arrastam atrás de outras pessoas, é uma jornada para se compreender e entender os valores que levam alguém a proteger e se dedicar por quem ainda não pode se defender. Junto a isso, a tão famosa "necessidade de explicar tudo" fica de lado, pois o importante é o que acontece quando as pessoas estão próximas, seja no mesmo propósito ou não.

E talvez toda essa dramaticidade seja um problema a trama.
O roteiro se preocupa em criar arcos e apresentar personas que serão importantes a trama, entretanto não há profundidade nessa mesma tentativa, o que acaba tornando algumas situações, e personalidades, sem qualquer novidade em cena. Infelizmente é possível identificar acontecimentos que parecem se assemelhar em outras obras, entretanto executados sem maior carga ou senso de perigo. Assim, o ritmo se torna arrastado no segundo ato, por mais que nos seja entregue uma sub-trama interessante, tudo é resolvido rápido demais. Além disso, o plano de fundo onde as tradições dos povos aborígenes aparecem, fica mal explorado e solto.

Por mais que a galera goste muito do Martin Freeman, novamente ele repete a mesma maneira de atuação. Aqui lhe falta a dramaticidade tão exigida pelo roteiro, a dor pelas perdas no caminho e até mesmo um pouco mais preocupação e zelo quando está em cena com a bebê que faz a sua filha. Em alguns momentos soa uma atuação automática e plastificada. 
Mas é Simone Landers, que auxilia muita vezes o ator veterano em cena. Sua personagem Thoomi, fiel as tradições de seu povo, vai construindo o seu espaço e mostrando o crescimento das relações humanas em meio ao caos onde vivem, gerando bons momentos e com a carga emocional certa em tela. 

Cargo é uma produção intimista, que escolhe trabalhar as relações entre as pessoas do que propriamente as causas de uma devastação zumbi. 
Nisso, tanto roteiro e direção conseguem expressar uma individualidade e personalidade, mas acabam se perdendo ao criar sub-tramas já conhecidas do gênero, sem nenhuma novidade em seus desfechos.
Ao final, quem espera inúmeras situações de susto e um terror que fará os cabelos arrepiarem, pode se decepcionar, pois o que temos nesta nova produção Netflix é uma jornada de sobrevivência, não apenas física, mas de como manter as relações familiares, em sociedade, e de amizades, vivas.
Certamente é possível encontrar Romero neste discurso da película.

Nota: 3,5/5 (Muito Bom)
Tecnologia do Blogger.