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3% e a síndrome de Vira-Lata

3% pode não parecer, mas é uma das obras brasileiras importantes para este tempo


Existe um complexo que permeia a cultura brasileira e suas formas de produção de conteúdo, um tal de complexo de vira-lata, onde nada daquilo que fazemos está bom o suficiente ou carrega a capacidade necessárias para se tornar icônico. Infelizmente a série da Netflix, 3% sofre um pouco com esse complexo por parte de comentários e críticas, mas se as pessoas souberem o quão ideologicamente bem posicionada é esta temporada, olhariam por outro ponto de vista o material.

Por "complexo de vira-lata" entendo eu a inferioridade em que o brasileiro se coloca, voluntariamente, em face do resto do mundo. O brasileiro é um narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima.
Nelson Rodrigues 

O pensamento que nos leva as condições de vira-latas está condicionado, segundo algumas histórias, ao fato do Brasil ter perdido o mundial de futebol em 1950, e potencializado pelo dramaturgo Nelson Rodrigues. O tal complexo é a capacidade que povo do nosso país tem de inferiorizar não apenas aquilo que fazemos, mas também de olhar para outros lugares e sempre enaltecer o que não é daqui.
Assim, 3%, a série da Netflix, uma das primeiras produções nacionais realizadas pela "locadora vermelha", é rechaçada por tentar algo diferente em terras tupiniquins, porém costumeiro nos países mais ao norte.

O desmerecimento de tal produção reafirma a nossa capacidade, como espectadores, de não aceitar ou deixar permitir acompanhar algo divergente do que já é realizado no nosso quintal, pois o que permanece é o pensamento sobre a grama do vizinho ser mais vistosa. Aceitamos jogos aparentemente vorazes, escolhas inusitadas para um futuro distópico totalmente controlado e tecnológico, se for elaborado não em terras brasileiras.

Logicamente a distopia possui problemas evidentes, desde atuações confusas, como a de Bianca Comparato, que não sabe dosar entre rebeldia ou ato heróico, ou Vaneza Oliveira, que possui um arco importante para a narrativa, mas que se perde por sua postura automática e artificial para os acontecimentos que acompanham sua Joana. Fora os famosos episódios que fazem a tão conhecida "barriga", que nada acrescentam e deixam o melhor para o final. Apressado por sinal, deixando visivelmente que havia algo maior ali para se explorar.

Porém essa pressa não retira o discurso importante que esta segunda temporada possui.
A série deixa claro os problemas da tão conhecida meritocracia, que permeia todas as gamas de todos os poderes da nação, que em sua narrativa exclui os 97% da população restantes. A desigualdade social e a forma como as pessoas precisam lidar com a fome, falta de recursos. Além disso, a representatividade se faz evidente quando passamos a acompanhar duas protagonistas, um personagem com deficiência (E seu discurso contra uma religião que enaltece tudo o que o processo e o Maralto realiza), e uma personagem trans que emerge como uma líder em meio uma manifestação que faz alusão a toda e qualquer atitude dos últimos tempos em busca de direitos. A produção não só reflete os tempos atuais brasileiros, mas nos lembra os fatos históricos que não podem ser esquecidos, muito menos se tornem desejos para o futuro.

3% é atual e politizada. Crítica e não nos permite esquecer fatos importantes da nossa história atual no Brasil, através de alegorias narrativas capazes de cumprir com o que se propõem projetando um futuro fictício. O grande problema aqui não é o ritmo moroso em seu início, ou as atuações sem emoção suficiente, mas o sentimento de que não conseguimos realizar algo tão bom quanto os canais do exterior. Entretanto esse complexo não some da noite para o dia, é um processo lento e exaustivo muitas vezes, tal e qual, o que os personagens passaram e irão passar na trama.
Nos resta então deixar de virar as latas do lixão chamado "preconceito com produções brasileiras" e assumir a nossa capacidade de sermos originais, inovadores e realistas. Pois o que acontece nesta nação rende muito mais que os "gringos" possam imaginar!
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