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One Day At A Time: A realidade, a vida e a tolerância

Cuba vai além de Fidel, Che e "Havana uh nana"


Em um determinado momento Penélope começa a dissertar sobre diferentes tipos de ofensas que os latinos já escutaram ou escutam nos Estados Unidos. No mesmo episódio, somos levados a assistir um momento onde o racismo impera em um ambiente para toda e qualquer pessoa. Por mais que o tom cômico dá ritmo a tudo nesta série, a história da família Alvarez é um choque de realidade.
Da difícil realidade de quem não tem, ainda, um lugar próprio na sociedade. Mesmo assim sem perder o ótimo, sagaz e ácido humor!

One Day At a Time é uma produção de humor da Netflix já com duas temporadas completas, a terceira ainda não foi encomendada, mas há fortes indícios de que irá acontecer.
Sua história narra a vida da família cubana liderada por Penélope Alvarez, mãe de dois filhos adolescentes, divorciada, militar que retornou do Afeganistão e que agora trabalha como enfermeira em uma clínica, junto a ela, temos sua mãe, Lydia, uma senhora que adora relembrar e citar os bons momentos em Cuba e seus filhos, Elena, uma feminista defensora dos direitos das minorias, e Alex, típico jovem preguiçoso metido a esperto.

Falando assim não parece que a série nos apresenta algo de interessante, pelo contrário, todo o discurso presente em One day at a time é extremamente relevante e repleto de discussões políticas e sociais da atualidade.
Penélope sofre com os traumas da guerra, principalmente, como reingressar ao "mundo normal" após tantas atrocidades que viu, ao mesmo tempo, precisa demonstrar seu valor em uma sociedade machista e questionadora quando uma mulher possui um papel como o seu de liderar uma casa.
Ao mesmo tempo, Elena e Alex vão começando a descobrir por conta de seu convívio escolar as terríveis atitudes preconceituosas. Sejam elas envolvendo suas origens ou orientação sexual.

A roteirista pontua cada um desses momentos com seriedade e um humor ácido, sarcástico e direto, perceptivelmente há as críticas ao governo Trump e as formas de julgamento adotados pela nossa sociedade atual. Assim, um momento de ir a sorveteria se forna um desafio para comprovar que os Estados Unidos também é lugar para aqueles que vieram de outro país, ou uma festa de aniversário serve de afirmação familiar em forma de apoio quando se é gay na adolescência. Sem medir os esforços tudo fica claro e nítido, deixando a realidade de boa parte da população que mora na terra do Tio Sam evidente. Logicamente, isso gera total emparia, não há como não nos identificarmos com os personagens, lutas, problemas e momentos de alegria.

Uma produção assim possui total relevância para o dia a dia, onde minorias se erguem para travar lutas que há muito tempo lhes foram subjugadas, a realidade de One Day at a Time não é diferente da nossa em um país onde as desigualdades são mascaradas através de um utópico estado laico, onde textos em redes sociais falam mais alto que a constituição e que acusações contra inocentes são mais viáveis, confirmando crenças políticas e religiosas. (Paro por aqui, continuo esse assunto em outro momento)
Entretanto, no universo da série, há sempre uma risada para nos arrancar e um lapso de esperança para nos lembrar que é possível ainda acreditar em um mundo mais tolerante, pacífico e harmonioso.

Assim, temos a frente de tudo isso, Justina Machado e Rita Moreno.
A primeira vai além do esteriótipo adotado por outras mídias do papel de mãe, o seu zelo e dedicação se misturam há momentos em que Penélope precisa lidar com dores físicas causadas pela guerra, traumas psicológicos e até mesmo um ex-marido, também militar, que está passando por consequências semelhantes após voltar do combate. Justina nos dá o tom de comédia e drama assertivo, ousando mesclar os dois em momentos que nos fazem rir e chorar.
Já a brilhante Rita Moreno, faz de sua Lydia, a enérgica matriarca da família, não há aqui caricatura de uma nacionalidade ou exageros, sua atuação dosa cada momento trazendo o necessário para não apenas nos arrancar risadas, mas a cada lembrança da Abuela somos levados a realidade de Cuba e de tantos outros imigrantes.

One Day At a Time é aquela dose de realidade bem humorada, carregada de acidez e crítica social. A cada risada que damos uma lição nova sobre tolerância, aceitação, representatividade é aprendida, sem a necessidade de ser um panfleto agressivo, o roteiro vai nos mostrando que a vida de quem teve que sair de sua terra natal para em busca de recomeço é repleto de percalços, onde certamente haverá embates contra o preconceito, racismo, machismo e traumas. Mas se há algo que aprendemos a cada episódio é que as diferenças servem justamente para nos ensinar sobre respeito e educação.
Assim, plenos 2018, uma produção, que pontualmente poderia ser considerada um Sitcom qualquer, carrega consigo a relevância em um discurso que representa, afirma, empodera, diverte e consegue arrancar lágrimas. E se você passar todos esses sentimentos ao assistir a série, só me resta deixar uma frase sábia da abuela Lydia: "Eu te avisei"!
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