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Aniquilação - CRÍTICA

Aniquilação, uma odisseia com questionamentos além do espaço


Carl Sagan certa vez disse: "O Universo não parece nem benigno nem hostil, mas meramente indiferente às preocupações de criaturas tão insignificantes como nós."
Histórias de ficção científica tendem a se aproximar do horror em alguns momentos, principalmente, quando o ser humano é confrontado por algo totalmente desconhecido. A reação a partir disso é o ponto crucial para o decorrer de uma narrativa que carregue esses elementos, pois a hostilidade muitas vezes não está no desconhecido de outra galáxia, está dentro da psique humana e sua resposta as mudanças. Assim Aniquilação comprova, desaprova, invade a cabeça do espectador com um belo "desgraçamento".

Lena é uma bióloga que até então não tinha notícias do marido militar, desaparecido há um ano durante uma missão secreta. Porém, quando o mesmo retorna, em um estado a beira da morte, ela descobre que tudo está relacionado a estranha Área X, uma espécie de dimensão cintilante que está se expandido no planeta, de onde seu marido retornou. Logo, Lena se junta a um grupo de exploradoras para então adentrar o lugar e entender o que realmente aconteceu e acontece lá.

Alex Garland nos entrega uma direção simples, porém carregada de personalidade.
A movimentação de câmera é estática, não há grandes tomadas ou movimentações expressivas, tudo funciona para que o espectador vá montando as peças que a narrativa nos entrega a medida que vamos conhecendo personagens, contextos e a Área X. Isso em conjunto com a fotografia que utiliza da luminosidade e do efeito prismático para nos dar um tom de estranheza, ao mesmo tempo, fazendo alusão ao discurso textual do roteiro. Além disso, o mixagem e edição de som completam a equação criativa da produção, com o uso de sintetizadores, som ambiente e até o mesmo o silêncio, tudo isso contribui para fazer desta uma história de "horror espacial", onde o que diverge está tanto no visual quanto no som.

A narrativa em si está repleta de questionamentos, conceitos, teorias e termos técnicos.
Interessante nisso é a forma como cada personagem, principalmente as exploradoras, vão reagindo as manifestações dentro do estranho lugar que estão. E neste ponto diversas perguntas surgem para quem está assistindo: "De onde viemos? Existe vida inteligente fora da Terra? Quem somos no Universo?". Tais incógnitas caminham paralelamente a forma de resposta do ser humano para aquilo que não lhe é compreensível, voltamos então aos elementos que fazem da ficção científica também algo aterrador como a insanidade, deterioração física, psicológica e o assombro com aquilo que não conseguimos mensurar.  
Tudo isso é acrescentado a medida que vamos entrando ainda mais na Área X, assim como alusões ao Big Bang e a criação, num contexto mais religioso.
Entretanto Aniquilação não é um filme para o grande público!
Tanto a linguagem utilizada como a escolha do ritmo da trama podem incomodar, pois boa parte do seu desenvolvimento está distante de qualquer sequência elaborada de ação, e por mais haja particularidades na mão de quem está no comando da película, falta um certo ânimo em cenas que beiram o tédio.

Em contrapartida, nos é entregue uma bela interpretação de Natalie Portman.
Lena é o recurso narrativo/personagem que melhor faz alusão a todos os acontecimentos de Aniquilação, desde o momento em que somos apresentados, quando a mesma está falando sobre uma célula, até o clímax, temos uma atuação expressiva, densa, ao mesmo tempo em constante preocupação e assombro com situações jamais vivenciadas. E assim gerando a empatia necessária para que o espectador deseje o desfecho de sua história.

Aniquilação é uma ficção científica repleta de camadas, questionamentos e teorias capazes de trazer o pensamento de como lidamos com o que está a nossa volta, com as mudanças e transformações que dentro do nosso contexto social, cultural, divergem do que nos é costumeiro. Obviamente existem muito mais aspectos se analisarmos a obra, cada elemento narrativo, formação discursiva, ideológica, intra e extra-discurso, que perpassa pela ciência, religião, filosofia. 
Num todo a produção assombra, amedronta, desconstrói ideias para então criar novas sensações e percepções. Mas não era isso que temos trama?
Assim, junte-se a nós nesse belíssimo desgraçamento de cabeça gerado por uma obra que faz jus a grandes ícones do terror espacial e fantasia. Um verdadeira odisseia que vai além dos pensamentos do que somos neste vasto universo! 

Nota: 4,5/5 (Sensacional)
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